Outro dia li este post sobre o Ruler Phone e estive pensando… Tentando fugir das respostas prontas e isentando o meu próprio senso crítico investi em um raciocínio do tipo “Perai vamos entender esse treco direito, para poder opinar”.
Em um mundo onde a cada segundo surge uma nova ferramenta – aplicativo – software, gadgets – estilos de interação, confesso que fica cada vez mais difícil não se render as respostas prontas do tipo “gostei disso/não gostei” “bonito/feio” “útil/inútil” “ruim/bom”.
Mas vamos lá, acompanhem o raciocínio. Usando o Ruler Phone como exemplo…
A qual atividade humana esse aplicativo suporta?
- Atividade de medir coisas.
Qual objetivo/meta maior as pessoas estão tentando atingir enquanto realizam a atividade de medir coisas?
Varia de acordo com contexto. Ex:
- Medir uma parede para ver se o quadro vai caber na parede;
- Medir a área do chão para ver se o tapete que a pessoa viu na loja caberia na sala;
- Medir a área do terreno para projetar uma nova casa;
Quem são as pessoas que precisam realizar essa tarefa em seu dia a dia?
Eu agruparia, talvez, por frequência de realização:
- Muito frequente: arquitetos, engenheiros, projetistas, marceneiros, artistas, designers de interior… quem mais?
- Alguma frequência: donas de casa, pessoas quando fazem mudanças (situacionais)
Quais são as ferramentas disponíveis no mundo para realização desta atividade:
Provavelmente existam outras (até mais precisas), mas conheço essas mais comuns:
- Régua
- Trena
- Fita métrica
- Escalímetros
- Mãos, braços (?)
- Pés (?)
Destrinchando a atividade: Quais são as tarefas necessárias para atividade de medir coisas?
Suponhamos que a maioria das pessoas que realizam essa tarefa, hoje em dia, use a ferramenta “trena”.
cenário base: Minha mãe mede muitas coisas aqui no apartamento, principalmente com o objetivo de mudar coisas de lugar e de colocar novos adereços decorativos em casa, como cortinas, tapetes, novo sofá, etc, então pelo o que já observei, o que normalmente ela faz:
As tarefa são subdivididas em outras mini tarefas, mas me concentro nas tarefas chaves:
- procura a trena
- chama outra pessoa para ajudar a segurar
- estende a trena
- um segura de um lado e o outro segura do outro.
- verifica se a trena está realmente bem alinhada.
- verifica o número
- anota o número em um papel ou memoriza.
Quais são os possíveis problemas que podem ocorrer para a realização satisfatória da atividade:
- a trena sumir junto com os outros vários apetrechos que existem em uma casa;
- normalmente exige-se a presença de mais de uma pessoa para realizar a atividade medir objetos grandes (um segura e o outro puxa a trena);
- a trena pode desgastar-se, sumir os números, quebrar, estragar;
- a pessoa pode perder o papel com a medida anotada ou esquecer-se do número;
Agora sim, chegamos ao ponto, Ufah!:
O RulerPhone dá suporte aos usuários que necessitam medir coisas com frequência, de maneira satisfatória (satisfatório pode ser: útil, eficiente, prazeroso, divertido…)?
Para responder com total segurança: eu entregaria esse treco na mão de um arquiteto/ engenheiro ou na mão da minha mãe mesmo e pediria para usar em uma situação real e aí depois de um tempo usando – a pergunta que não quer calar:
E aí?
Pela descrição do post da para tirar as seguintes conclusões:
Parece minimizar os problemas que podem ocorrer na atividade de medir com trena:
- não precisa de ter uma outra pessoa como “suporte” a atividade;
- por estar dentro do seu celular a chance de se perder entre as outras tralhas é menor (talvez?)
- a pessoa não precisa se preocupar com o anotar a medida em um papel e perdê-lo.
A atividade de medir agora ganha outras tarefas:
- achar o iPhone
- escolher a opção “Ruler Phone” no menu do celular;
- posicionar um objeto do tamanho de um cartão de crédito em frente
- tirar uma foto do objeto que se quer medir
- e ajustar o enquadramento (é isso mesmo?)
- ajustar uma régua virtual
- conferir o valor
- Salvar(?)
[Notem como as ferramentas mudam a forma como realizamos as mesmas atividade. As tarefas mudam. A questão é justamente, como é a influência disso, qual o impacto na atividade?]
Quais os novos problemas possíveis que podem surgir?
- bateria do celular acabar no meio da atividade
- e se a pessoa não tiver um objeto do tamanho de um cartão por perto?
- se a pessoa precisar medir vários objetos, de uma vez?
- qual o grau de precisão?
- é mais rápido que a atividade sendo realizada com outras ferramentas?
- qual tipo de objeto e em quais situações o aplicativo consegue medir?
Todas essas questões podem ser respondidas, estudando pessoas usando
… Acrescentando as observações do Kenji:
Enfim, para uma análise realmente satisfatória é preciso, antes de tudo responder as perguntas:
- Qual o objetivo de design do aplicativo?
- Para quem ele foi projetado (usuários alvo)?
- Quais características dos usuários e do contexto influenciam o seu uso?
[este post foi inspirado pelo artigo do Jeff Patton sobre Users Tasks]
Adoraria ler a opinião de vocês…

6 respostas Até agora ↓
leonardo kenji // Setembro 28, 2008 às 3:25 pm |
eu acrescentaria como dificuldade o ceticismo de um profissional quanto à precisão dessa técnica.
se a pessoa precisa saber por exemplo se o criado mudo cabe do lado da cama, um erro na casa de alguns centímetros pode ser aceitável, mas se vc quer saber a largura de um corredor para instalar uma porta, seria inadmissível.
o que diferencia o ruler phone de, digamos, uma ferramenta profissional com mira laser e precisão comprovada de fábrica?
qual aplicação é para o profissional e qual é um brinquedo?
Maíra // Setembro 29, 2008 às 12:25 pm |
Karine, tudo bem?
Desculpa te incomodar mas como você trabalha com design de interação e parece ter bastante experiêcia na área gostaria de te pedir uma sugestão. Você conhece algum curso legal aqui no Rio de janeiro? Na PUC só tem o mestrado e eu gostaria de fazer alguma especialização. Se você tiver essa informação, vai ser muito útil! Obrigada pela atenção.
Maíra.
Rafael Marin // Dezembro 7, 2008 às 1:26 pm |
Concordo com Leonardo, quando diferencia as aplicações da aplicação (trocadilho maroto
) entre os usos profissional e recreativo. Essa diferenciação já nos leva a uma série de outros fatores a serem questionados, como bem dito acima. Parabéns pelo artigo, Karine.
Igor Mendes // Dezembro 16, 2008 às 5:19 pm |
Interessante. Apesar de achar uma iniciativa válida, tenho dificuldades em entender qual a utilidade que tal tipo de ferramenta realmente tem.
Até porque, concordando com os dois comentários acima, profissionais de áreas que utilizam ferramentas de medição constantemente já possuem instrumentos de alta precisão e confiabilidade. Acredito ser válido apenas para “amadores” que, ainda assim, utilizariam muito pouco o recurso.
Te qualquer forma, parabéns pelo artigo!
Jonas Felipe // Maio 14, 2009 às 10:34 pm |
Oi Karine, tudo bom?
Não acredito que a intenção dos desenvolvedores tenha sido desenvolver algo útil, mas fazer a tal experimentação que boa parte dos desenvolvedores adoram e que já criou muita coisa de sucesso tanto dentro quanto fora da AppStore.
Abraços!
karinedrumond // Maio 15, 2009 às 3:35 pm |
Ei Jonas, concordo. Experimentação é essêncial. E é uma prática constante não só de desenvolvedores, mas também de designers e todos que de alguma forma se empenham em criar algo novo… Mas também precisamos parar e questionar o que estamos fazendo, para quem e por que. Acho que as duas coisas se complementam e enriquecem o desenvolvimento de novos produtos.
Obrigada por comentar, Abs!